>A Liberdade dos Andarilhos

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Olhar fixo para além da janela, buscando algo que nem existe, ou se existe não se mostrou ainda.

Pensamentos dispersos, voando… Parando um pouco aqui, um pouco acolá!
Mãos trêmulas!
Segurando um maço de cigarros e um isqueiro, incertas ainda sobre o que fazer com eles…
Ouvidos atentos a todos os sons, estranhando alguns, outros nem tanto!
A procura através da janela se faz com nervosismo e ansiedade!
Estar só é um enorme sacrifício e uma tortura. Estar completamente só é uma loucura!
Na memória vou buscando volta e meia os motivos desse exílio.
Bobagens vão sendo encontradas aos montes…
Uma briga com a esposa, uma cisma com os filhos, a namorada de um deles, a mãe sempre chorosa e o cachorrinho da sogra!
Que salada!
Que bagunça sem nome, construindo um mal estar tão agudo, oprimindo tanto o meu peito que respirar parece um martírio!
Queria ser agora, um andarilho! Ter a liberdade das estradas…
Viver um pouco da vida de cada lugar, gozar da vida de cada parada!
Ter nos olhos outras cores, fora o cinza desta cidade empoeirada! Ouvir outros sons que não fossem os dessas buzinas desesperadas, ansiando um movimento, que se acontece, lhes é ainda lento e ineficaz!
Minha boca tem fome…
Queria tanto comer comidas estranhas ás que até aqui tenho devorado, maquinalmente, sem cara de quero mais!
Queria tanto sentir outros sabores, diferentes destes já tão iguais…
Meu corpo tem fome…
Fome de um amor! Um amor estonteante!
Minha alma então se ressente… Estou a procura de algo mais!
Queria tanto ser outro, liberto desses sentimentos, desses pensamentos, desses receios do que é certo eu do que é errado… Queria estar liberto de meus atuais pudores, para viver amores que nem sentem medo de amar e nem de serem amados!
Assim o amor em mim seria menos calmo, menos sempre o mesmo, morno, requentado!
E até o meu desejo estaria sendo assim sempre renovado!
Quem sabe em outras terras não sentiria de novo o frescor de meus melhores anos, naqueles em que eu era o melhor em tudo e o mais belo e o mais desejado?
Quem sabe em outras terras eu não seria disputado por inúmeras e belas donzelas,onde tocar-lhes a pele alva não se constituiria um enorme pecado… Nem abusar de suas carnes, nem tanto assim resguardadas…
Mas ao olhar, que não encontra nada disso através da janela, se manifesta!
É tudo, outra vez, delírios e sonhos…
Será que nesta altura de meus anos, uma loucura em mim se instala?
Desvarios e sandices, indo e vindo dentro de minha mente, bulindo com as iniquidades em meu coração produzindo estes desvarios…
Não sou feliz da forma que vivo, ou vivo de uma forma infeliz?
As paragens onde posam os meus olhos nada respondem ás indagações que me acorrem nesta hora, uma nuvem negra, no entanto, passa sobre a minha casa, talvez seja a mesma que me aperta o coração e seja a mensageira de tantas mágoas.
E entre os dedos o maço de cigarros, com o qual pouco a pouco me mato e na outra mão o isqueiro que nervoso acendo tresloucado, olhando fixo as suas chamas, nas quais me imolo!
Volto minha face para um espelho suspenso em uma parede da sala e súbito tudo me parece engraçado, tudo isso parece muito engraçado…
Meus olhos fitando os meus olhos no espelho encontram uma face embasbacada!
Eu aqui pareço aquelas criancinhas mimadas, ressentidas pelo tratamento que lhes fora dado ou aqueles jovens que foram pegos em seus atos mal feitos e por isso malfadados…
Eu aqui procurando futuros incertos, tanto quanto o foi o meu passado, chorando lágrimas temperadas pelo sal do desespero e do desentendimento.
Enquanto a vida lá fora, livre das garras de meu olhar viciado, vibra e se propaga!
Ser enfim um outro não mudaria nada!
Ele, o outro, nem ao menos teria algo a ver comigo, não sentiria as minhas dores e os meus machucados nem seriam as suas chagas…
Se ressentiria com outras coisas e estas minhas coisas seriam apenas piadas…
Ser assim tão diferente de mim mesmo, faria tanta diferença, que seria necessário a natureza parir-me assim como sou para que eu existisse… Os mesmos pais para uma mesma vida?
E as estradas, estas de meus sonhos, que me acenam assim tão divinas, não seriam as mesmas onde imprimi minhas pegadas…
Passos e espaços em que lançaria o meu corpo, meus sentimentos e minha alma!
No fim, o único espaço para o andarilho, que ele pode chamar de seu, é aquele que ocupa os seus pés. E a sua liberdade, mesmo não estando tolhida por grades, dependerá apenas de si…
Tudo o que o cerca não lhe pertencendo, não é verdadeiramente seu e sua vida estará restrita ao que lhe propicia os seus sentidos, pois os alheios serão apenas breves brisas fugidias…
Sou assim, o que faço de mim mesmo, serei assim, o que ardentemente fizer de mim.
Sendo um andarilho nesta vida, tudo o que tenho e que posso chamar de meu é o que trago comigo,
Será o modo com que reparto com os outros o que é meu, será o modo como os outros repartem comigo o que é seu, que fará a diferença em nossas vidas… Os pensamentos e sentimentos que compartilhamos, em sua origem, são nossos, mas que se transformam ou não com o contato com os pensamentos e sentimentos dos outros…
Apenas para quem me ame e bem queira, tudo o que partir de mim terá um maior valor, pois a empatia que nos unir trará uma melhor compreensão de tudo o que partir de mim…
E mesmo aquilo que não for aceito ainda assim será um sopro de vida, da minha vida!
No fim os outros desejos manifestos não passam de desvarios que nem em minha mais tenra idade poderiam ser satisfeitos quando ousaram ser manifestos…
A alma andarilha, liberta, vaga, caminha pelos caminhos abertos pelos corpos, a mente e os sentimentos se são hemisférios opostos fazem parte da geografia misteriosa da vida.
Encontro-me agora nesta solidão tanto mais longe de mim mesmo, quanto a distância entre dois pontos, entre opiniões diferentes, sentimentos de toda a gente; mas será que não é apenas uma questão de observação, paciência, amor e empenho?
Se os passos do andarilho definem o seu espaço, não será apenas uma questão de sorte que uns tenham os pés mais largos e outros não.
Edvaldo Rosa

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